terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

The Death by Sophia

Ponderando por hoje, resolvi falar sobre a morte.

Como é morrer? Por anos tive essa dúvida me atormentando, mas nunca tive real curiosidade de saná-la. Acreditava que era algo cujo todos descobriam ao final, um segredo dos homens mortos, um segredo inviolável, pois mesmo os que quase morrem, não tem real idéia de como foi sua passagem. Algo limpa-lhes a memória para que possam continuar.

Não era nada disso. Não era nenhum segredo inviolável dos mortos, nem um místico adereço da vida. Morrer não tem mistério e, por outro lado, continuar vivendo é o real martírio da existência.
Claro que só descobri isto com a minha morte. A nossa insaciabilidade humana vem conosco para a existência, mesmo que boa parte da ignorância fique na cova.

Irei me explicar, calmamente, prometo. Só preciso introduzir a minha versão do que foi a morte antes de continuarmos;
Estava apavorada, mas não o suficiente para esquecer a sensação de que o sangue se esvaiu de mim. Senti frio, como se congelassem meu corpo à partir dos pés, e, ao chegar nos joelhos, meu corpo estivesse se desfazendo em pequenos farelos.
Então um breve calor inundou tudo sentia-me um copo de água fervendo com um belo torrão de gelo acima, um torrão que não derretia com o calor da água, assim como não a resfriava, havia uma harmonia. Então a escuridão me preencheu, cada vazio anterior do meu coração e do meu corpo estava sendo coberto. (Estranhamente, posso definir como felicidade o que senti)
Acordei algum tempo depois, não saberia dizer quanto, mas foi quando entendi que morria, soube que naquele momento não tinha retorno.
Senti dor, tristeza, felicidade, alegria, ternura, e todos esses sentimentos e suas sub-divisões estavam começando a afundar para a parte de trás do meu corpo. Sentia-os deslizar por meu corpo como um líquido viscoso e negro, se acumularam em meus ombros, minhas costas, minha bunda, minhas panturrilhas e meus calcanhares, todos saídos de minha cabeça.
Abri a boca, desejando me desesperar, mas não consegui. Não sentia mais medo, nem preocupação. Algo em mim, por outro lado, estava extremamente curioso com o final de todo aquele teatro que ocorria em meu corpo.
No tempo que se seguiu uma segurança pareceu aterrar o líquido viscoso em minhas entranhas e sobre isso uma fome desesperadora me atingiu como um punho quente. Nesse momento me movi sacodindo o local onde estava e gritei. Arranhei a tampa do caixão e toda a serenidade que apresentava e sentia parecia ter sido posta tão fundo quanto o líquido negro em meu corpo.
Novamente gritei, mas um rugido foi o que ecoou de minhas cordas vocais. Não perdi tempo, precisava comer, me sentia enterrada a milênios, faminta e desesperada por milênios.

Gritei, rugi e gemi por muito tempo até que um rosto desconhecido surgiu de pé à beira do caixão. Algo nos olhos daquela figura me acalmou. Impediu que meu corpo surtasse novamente, algo nele parecia ter pleno controle sobre a faceta de mim que nem eu mesma compreendia.

[cont.]

> Não revisado.

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