sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Rain Lullaby




.............
A chuva caia torrencial sobre sua cabeça, no ponto alto de sua vigília não havia proteção contra a água. Tinha o queixo quase colado ao peito para não atrapalhar os olhos. "Como os de um animal", pensava, "pode não ser nada". No entanto, "nada" voltou a se movimentar pela escuridão, procurando fugir sorrateiramente de onde sua primeira flecha caíra.
Mudara de posição, pois ainda não sabia o que Nada era. Fora até o ponto mais alto da torre acima das proteções e do lugar de onde ficam os arqueiros. O terreno ali era um pouco irregular e estava escorregadio, fazendo-a quase cogitar ter sido uma má ideia. Porém, sabia que estava submersa em sombras e era a proteção que precisava. Nada parecia portar apenas uma faca de mão. Provavelmente um ladrão qualquer. Estava de vigília nos animais dos pastores e ela o pegara no ato. Ninguém mais alegou ver Nada. No entanto, a menos que fosse ele um elefante feito de ouro e iluminado com tochas, acreditava que nenhum dos homens da guarda daria-lhe ouvidos. Era uma mulher e já estavam desconfortáveis o suficiente com este fato para quererem se incomodar com algum outro.

Novamente Nada se moveu na escuridão, procurava abrigo atrás de árvores antes, mas agora escondia-se apenas na relva mais alta e em arbustos ou pedras. As planícies eram cruéis aos invasores. E Lyne acreditava que sua flecha também seria. Seu visitante noturno parou ajoelhado atrás de um arbusto, mas protegia-se de um local diferente do que a arqueira estava. Pode ver perfeitamente, então.


Nada era uma menina. Com alguns anos a mais que os seus, com os vestidos ensopados e rasgados. Não distinguia a cor de seus olhos, mas os cabelos pareciam de um vermelho escuro como sangue. Sangue também presente em sua faca. A carregava com pavor no olhar, mas lhe segurava com a firmeza de um assassino. Esse fora seu estopim, a maneira como a menina segurava a navalha não era como uma inocente faria. Sua flecha se encaminhou pelo arco em um movimento natural. Alinhou a seta e cerrou os olhos, piscando para remover gotas indesejáveis  Soltou a corda e deixou o som de Vento sumir na ruidosa chuva até achar seu alvo.


Um grito de mulher preencheu seus ouvidos e viu quando ela deixou cair a navalha. A noite silenciosa ganhou os gemidos de dor e os archotes abaixo de seus pés se iluminaram. Na base dos muros os homens da guarda seguiam o som até acharem Nada. Ela se contorcia e arfava. A seta enfiada fundo na carne do ombro não era letal, mas doía como só ela. Entre os gemidos e com luz, viu quando os homens voltaram os olhos para os muros, procurando-lhe. Eles acharam a faca e levaram Nada para dentro, mas sabia que ao descer, não receberia nenhum sorriso de bom trabalho, mesmo que uma infantil parte de si desejasse isto.


Observou o chão irregular e tomou cuidado ao descê-lo. Os cabelos pareciam se misturar com a água e a escuridão e sua palidez era a única coisa para ser vista dentre seu couro cozido, capa e botas. Chegou à cobertura e se infiltrou nas muralhas, ensopando o caminho com sua presença. O frio lhe atingiu os ossos, mais forte do que acreditava estar enquanto vigiava sua presa.


Continuou andando até achar alguém. As roupas pesando três vezes mais reforçavam o frio, mas ainda desejava ver o que acontecera. Pôs o arco nas costas e adentrou mais os muros perto da guarda dos portões que se alocava ao redor da mulher. O capitão olhou-a de cima a baixo e sentia o desgosto. -Como vos disse, alguém se esgueirava pelas terras do senhor meu pai.


-Uma mulher. -Retrucou ele com resguardo. -Deve ser da vida ou uma gatuna qualquer. 

-Não se portava como uma qualquer. Chame o meistre para cuidar dela. -Sua voz era vazia de emoções, mas firme como a de uma Hullsurge.
-Não é certo perturbar o meistre no meio da noite para poupar uma invasora, menina. Teria sido mais prudente dar-lhe uma flecha na cabeça ou nenhuma. O que fez só nos atribulará. 
-Pois que faça como quiser para cuidar dela, mas a mantenha viva e bem tratada. Meu pai ouvirá disso pela manhã. -Ela se pôs à caminho para sair da sala, mas parou ao sopé da porta, ensopada e firme. -E não me chame de menina novamente, capitão.

Saiu do aposento mergulhando novamente na chuva para ir aos seus cômodos. Dessa vez o frio não veio. A água não lhe congelava mais. Passou pelo armeiro para deixar Vento e a capa verde escura e agora pesada como um cavalo sobre suas costas. Seguiu por dentro até a torre dos gêmeos como ficara denominada com o nascimento dela e Damian.


Chegou na porta do quarto do irmão do lado de fora e se apoiando na parede deixou-se cair e deslizar pelo molhado das roupas até estar sentada no chão. Torceu os cabelos, deixando um fluxo de água cair sobre as pedras e pegou-se pensando sobre a moça e imaginando sua história. Pensando o que o pai diria de manhã e se fizera o certo.


Passou muito tempo na escuridão do corredor com seus pensamentos e o frio até que um archote iluminou-lhe as faces. Era uma menina de 15 anos, molhada como um gato, branca como uma vela e de olhos grandes e, naquele momento, assustados. Talvez fosse digna de pena ou compaixão, mas sentia-se só no meio da casa cheia de gente.


O irmão mais velho estava de pé. Segurava o archote e trajava parte da roupa de capitão da guarda. Não parecia bravo ou chateado, mas cansado. Se aproximou dela e ajoelhou ao seu lado. Beijou-lhe a testa e apartou aquilo ainda sério. -Está ensopada, Lyne... Vamos..


Ela ergueu os olhos ao irmão e não se moveu, ainda tinha algo nos próprios orbes que remetia solidão. -Por que está de pé agora?

-Mandaram me acordar para ver o que fez. Foi um buraco e tanto na moça... 
-Estava rondando nossos muros de faca em punho no meio da noite.
-Sim, vi a lâmina. Era muito boa para uma ladra qualquer. -Edward deu um suspiro e passou a mão pelos fios molhados dos cabelos da irmã.
-Então o que te trouxe aqui?
-Abater alguém não é fácil. 
-Abater? -Sua voz soou copiosamente imbecil.
-Está morta. O que me leva à perguntar... Onde arrumou veneno para sua flecha?
-Veneno?! -Não sabia como responder, não usava veneno nas flechas desde que vira um coelho retorcer de dor até a morte. Pegara nojo dos venenos. -Lugar algum, não uso disso! Estava viva quando à deixei para ser cuidada por -Nomedocap.dosportões- Como pode ter morrido?!
-Lyne, por favor. Não está mentindo, está? 
-Juro por Vento que não. Dou minha palavra. -Seus olhos se encheram de lágrimas e não teve como pará-las. Angustiava-a a ideia de que a mulher morrera e de que ela era a culpada. -Não a matei! Podia tê-lo feito. Podia e até pensei, mas dou minha palavra de que atingi o ombro da faca só para que os guardas a vissem. Soubesse sua posição e queria que acreditassem quando os disse que havia alguém! Sabe que posso vê-los, Edd. Sabe disso. -Sua voz, quase sempre firme e estoica agora se transformara em um miado de menina.

Entre soluços o irmão passou os braços ao seu redor, permitindo que afogasse o choro em seu peito. Ele parecia aliviado. Abraçou-a um pouco mais firme, molhando as próprias roupas.


-É melhor se trocar, vai ficar acamada se continuar molhada desse modo. 

Assentiu com a cabeça e, após um tempo soltou-se dele. -Pode dormir comigo essa noite? -Os olhos cor de trigo brilharam à luz do archote e, recheados de lágrimas, refletiam seu medo.
.............

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

The War Tales by Anne


..........
Ela estava afiando sua adaga em um cinto de couro preso à porta daquele cubículo onde se encontrava enfornada como um rato. Seus olhos focaram deslocadamente uma antiga faca sobre o banco ao lado da cama e não demorou muito para lembrar de sua história.

Anne afiava a faca à bancada de mármore da cozinha, não aguentava a ausência de fio dessas facas de cozinha. Tinha um sorriso nos lábios e um quarto de queijo em cima de sua pia que deveria ser cortado logo. Arriscou passar a lâmina no queijo e dessa vez ela deslizou suavemente, sendo bem mais agradável do que a anterior sensação emperrada. Continuou cortando o acompanhamento em quadrados quando Llane entrou com uma garrafa vazia de vinho na mão e um sorriso simpático no rosto. Era engraçado como ele adquiria uma seriedade dócil perto dela. Sempre notara o quanto ele se empenhava para não dizer nada que o fizesse soar tolo, mesmo que falhasse miseravelmente toda vez.
Sorriu para ele e, ao virar o rosto novamente para o queijo, seu coque afrouxou um tanto. Sentiu-se corar e continuou a cortar o queijo.
-Então, não pretende se juntar a nós? -Ele sorriu de sua maneira peculiarmente charmosa.
-Claro que não, acho que esse queijo me é uma melhor companhia.
-Ouch, me sinto ofendido assim.
-Ele riu e pegou um dos cubos da tigela, passando o braço por cima do ombro direito dela. Pode sentir o hálito dele perto de sua orelha, cheirava a vinho, mas também ao eucalipto que frequentemente o via mastigando.
-Estávamos falando de você.
Ela virou perigosamente perto o rosto para ele após cortar seu último cubinho de queijo e sorriu.
-Acho que é o que acontece quando se sai do ambiente para servir aperitivos.
-Acho que é o que acontece quando se é uma mulher esplêndida.
-Somna sabe que está falando dela por ai?

O comentário o fez se afastar um pouco.
-Venha cá, lhe ajudo com o vinho. -Disse isso e se afastou mais dele, indo até o fim da cozinha, abrir um alçapão extremamente novo e bem cuidado.

Ela desceu a escadaria e sentiu que ele o acompanhava, ela tirou do bolso da saia um acendedor e iluminou as velas da adega. Feita de pedras frias, era o que se podia chamar de adega luxuosa. Pegou uma garrafa de vidro esverdeada e bem lavada de uma prateleira e andou até um dos barris, encaixando a garrafa e abrindo sua 'torneira' para fazer escoar o vinho. Todos com emblemas de Stormwind, os barris eram de Nortshire Abbey e haviam descido lá há alguns meses, mas o vinho em si era guardado a mais tempo.

Não precisava de muito para notar que ele a seguira após alguns instantes e ficara apoiado à escada pelos cotovelos. Quem diria que o rei seria um homem tão novo e simpático quanto seu próprio marido? Conhecera o pai dele e lidara com a sua morte sem culpa alguma, mas sentira-se mal por Llane. Ajudara-o a passar por isso há alguns meses. Ele havia sido instruído para ser rei e sabia que ele tinha poder e confiança para isso.
A garrafa se encheu e o líquido gelado em suas mãos foi logo entregue ao outro enquanto ela pegava uma nova garrafa para encher.
Llane sorriu e deu um gole na garrafa, brincando com a reprovação que surgira nos olhos de Anne.
-Obrigada pelo jantar. Tem sido uma ótima amiga, desde que Landen se foi. -Ele pareceu extremamente honesto.
Anne sorriu e sentiu-se corar.
-Sei o quanto é difícil perder alguém importante.
-Só.. Nunca achei que... Seria capaz. Ser rei.
Ela terminou de encher a nova garrafa e se adiantou até o loiro, colocando a sua mão sobre o ombro dele.
-Você é um bom rei, Llane, vai ser um ótimo rei. -Ela disse firme e séria. Não estava elogiando-o, estava afirmando isso.
O rei passou a mão pela bochecha dela e desceu suavemente os dedos pelo seu queixo. Quase como se tivesse o feito antes.
-Austin não sabe um quarto da mulher absolutamente incrível que é.
Desvencilhou seu rosto da mão dele e franziu o cenho ligeiramente desdenhosa, mas ainda sorrindo.
-Nem que seu melhor amigo tem interesse por sua mulher, mas vamos manter assim, não é?
-Espero que ele saiba o que fazer para não lhe perder.
-Creio que ninguém sabe isso.
-Eu creio que ganharia se apostasse em uma coisa ou duas.
-Try me.
-Disse ela sorrindo após uma risada.

Ele se adiantou alguns passos e deixou o vinho nos degraus. Usava uma camisa branca e um colete por cima. Os tecidos eram nobres, mas mantinham os músculos do rei evidentes. Ela se lembrava de como a voz dele pareceu calorosa no frescor da adega.
-Não lhe sufocar, com nada. Não exigir que faça o que não deseja por capricho. Como deixar seus cabelos compridos.
Apesar da surpresa com que foi atingida por esse comentário, apenas bufou baixinho e riu.
-Austin nunca me pediu para deixar os cabelos crescidos. Faço isso por que sei que ele gosta. Assim como ele se barbeia por minha causa.
-Tal como eu. Mas não vou começar a conversa de quem fez isso antes. Tenho certeza que seria mais confortavel com as madeixas curtas.
-Anotarei a dica.
-Ela sorriu e pegou as garrafas de vinho, subindo pela escadaria da adega.

A adaga escapou de sua mão e Anne reparou que se cortara com certa profundidade pela distração. A adaga estava agora no chão, embebida numa linha grossa de líquido vermelho. Ela secou a mão numa toalha e foi pegar as bandagens, sem expressão nenhuma de dor. Só agradeceu mentalmente que não havia colocado seu veneno ainda nela.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Suck my behavior, then I lick your good intentions


..........
Encontrava-se sentado embaixo dos bancos, no meio das estruturas metálicas em um canto da quadra. Seria trabalhoso achá-lo alí, mas frequentava o lugar desde seu primeiro ano e, com isso, os outros alunos pareciam menos interessados nele.

Podia jurar que tinha algo como um campo eletromagnético, que repelia as pessoas, ao seu redor e gostava dele, relativamente. Digamos, era... Bom não ser atormentado pelos outros, nunca fora o perfil de cara que sofre bulling, mas também nunca se enquadrou em popularidade ou sequer menores integrações sociais. Não tinha dinheiro, digo, trabalhava em um armazem de noite para não ser _mesmo_ zerado, no entanto, suas roupas eram sempre velhas e usualmente esfarrapadas, seu rosto vivia encoberto pelos cabelos loiros luminosos e isso tirava a atenção que poderia ser dirigida a seus olhos. Azuis como a profundidade dos céus, grandes orbes iluminados que Britt se referia como "os olhos de um anjo", que piada... Adorava a cor de seus orbes, mas não preocupava-se em exibí-la, só em suas frustradas tentativas de arrumar um encontro.
Bom, Morgan tende a não ser bom com as palavras ou com o seu comportamento e tende a ser pior com a rejeição... Bem pior. Fora isso é um bom garoto.

Sua vida estava uma merda, em todos os sentidos. Queria explodir algo ou alguém... Em breve, queria matar algo, queria descontar essa raiva, mas apesar disso seu semblante era calmo e indiferente... Só o ar pissed, but best than you convencional enquanto fumava um cigarro. Era o último do maço que comprara antes de dormir ontem, fumara tudo de manhã e nem tinha a consciência disso.

Havia passado a noite na rua, sua Britt estava dando e não suportava assistir ou ouvir aquilo. Algum dia juraria poder dar um tiro em ambos para que se calassem. Tinha prova e estava perdendo-a por estar com sono demais. Tinha pensado em estudar a noite, mas fora só mais uma de suas teorias ridículas sobre uma vida acadêmica. Não era para ele e nem sabia realmente a razão de ainda frequentar a escola. Espera, sabia sim... Não ter de ficar em casa.
..........

domingo, 26 de dezembro de 2010

Good morning; Chicago


..........
O moreno tragou pela última vez o cigarro e aproveitou o conforto momentâneo, expelindo a fumaça que sobrara antes de atirá-lo à escuridão do chão úmido. Se desencostou da parede e saiu andando com seu par de all stars azuis marinhos limpos por aquela imundice típica de vielas de cidades grandes. Estabeleceu um rumo imaginário em sua mente e adentrou o beco não iluminado, com os olhos voltados para o chão e as mãos na jaqueta de - negro tomava a rota mais rápida para casa.

Eram quase quatro da manhã e Adan andava pelo inverno de Chicago apenas com um agasalho e a calça do pijama por baixo do jeans azul marinho. Não parecia preocupado em se congelar, mas sentia a umidade dos tênis e o arder das maçãs do rosto. Agora que a fumaça do cigarro cessara sua respiração era balanceada pela nevoa feita do ar gélido e o calor que suas narinas ainda tentavam expelir com o gás carbonico.

Não tinha mais de dezessete anos e seu rosto mentia bem esse número. Assim como sua altura, que não chegava a 1,80, parecia resolver sacaneá-lo para que parecesse ter 15. Adan era extremamente auto-crítico e detalhista, mas não era possivel sabê-lo. Quanto mais seu gosto por conhaque e rum. Realmente apreciava as bebidas e estudara-as para saber mais. No entanto, o gosto que estava em sua garganta agora não era de nenhum bom rum, mas de um conhaque vagabundo que servira para esquentar seu retorno.

Não era um vândalo ou vagabundo, quanto menos se assemelhava a um delinquente ou qualquer hoolligan kind type. Seus pais provavelmente sabiam que ele não estava em casa e era normal que não fizessem nada, Adan não conseguia passar intimidade ao casal, nenhum tipo de intimidade que os fizesse sequer soar como seus pais após certa idade. Ele estava ali e eles estavam ali, era sua relação. Algum aceno com a cabeça e murmurar qualquer comentário à mesa de jantar. Era tratado diferente e, desse modo, era diferente.

Continuou seu caminho e não pensava em ser assaltado, nem acreditava que seria. De qualquer modo, também não se importava caso fosse e era esse o tipo de segurança pessoal que tinha ao andar pelas ruas.

Fez um novo trajeto mental e o seguiu por alguns quilometros. Gostava de andar, seus passos eram calmos e sem pressa. Notava a mudança de cor no céu enquanto andava e absorvia os tons róseos extremamente finos salpicarem o azul negro do inverno.
Faltavam vinte para as sete quando pisou no doormat de sua casa e secou a sola dos tênis ensopados com umidade. Tirou suas chaves do bolso e despiu os calçados e as meias no gélido ar de dezembro. Entrou em casa sentindo o calor do aquecedor e fechou a porta com a suavidade de quem não acha justo acordar os pais.

Andou até a lavanderia e tirou seu casaco e calça jeans no tanque. Deixou também seu par de tênis ali ao lado e seguiu trajando os pijamas ligeiramente frios pela casa bem arrumada dos pais. Acreditava que sua avó viera fazer faxina no meio da semana e isso explicava não residirem copos na pia ou sapatos embaixo da mesa de centro.

Subiu para o seu quarto e pegou uma toalha, na direção do banheiro. Passou os olhos pela fresta da porta de sua irmã e pôde vê-la aquecida em seu edredom tom de pêssego. Esboçou o que era sua representação de sorriso e fechou-se no banheiro, pendurando sua toalha no devido local e livrando-se das calças e da blusa, pondo-as no cesto de roupas.
Ligou a água quente e entrou de cueca na ducha. Apoiou a testa em uma das paredes e deixou o calor deslizar por sua nuca abaixo. Percorrendo a trajetória de sua coluna até o elástico da boxer branca. Não por charme, sua mãe comprava-as e era só.

Tirou sua última peça de roupa e, enfim, focou-se em tirar a imundice da rua de si antes de ir para a aula.


..........


A ruiva abriu os olhos quando a ducha fora ligada e se manteve observando o teto desde então. Estava perturbada e era só o que se permitia sentir. Não fez muitos movimentos mais para não despertar Jordan, mas sentia a palpitação desrregulada de seu coração. O estômago era embrulhado e apenas ponderava sobre o som da ducha que sabia ser do filho mais velho.

Não se iludia ao pensar que ele acabara de acordar. Conhecia os hábitos do moreno como um relógio e mais ainda conhecia o que andava fazendo. Havia brigado diversas vezes e acreditava que inutilmente. Manteve-se frustrada e deitada em sua impotencia até que o som parasse e ela pudesse despertar para fazer o café e acordar Angie.


..........


Por mais dez minutos, Adan se banhou e enrolou na toalha, secando os cabelos, as canelas e os pés para que não molhassem nunca o chão. Não gostava de molhar o chão. Caminhou para fora do banheiro e deixou tudo o mais próximo de como estava antes que ele entrasse lá. Seguiu para o seu quarto e deixou a janela entreaberta com o frio da manhã enquanto se vestia. Era uma das poucas coisas que, honestamente, acalmava-o.

Abriu o armário e colocou uma nova roupa de baixo antes de pegar sua calça social azul e a blusa branca, também social. Secou bem os cabelos antes de por a blusa e amarrou a gravata após passar desodorante e creme para acne nas bochechas. Estava no fim seu tubo, assim como suas espinhas. Meticulosamente passou os dedos pela prateleira de afins em seu armário e retirou uma gilette, indo novamente para o banheiro sem muita vontade.

Parou de frente para a pia e observou a lâmina em sua mão por um segundo ou dois, então aproximou o rosto do espelho. Passou os dedos pelo queixo e bochechas sem nenhuma expressão , desceu a averiguação pelo pescoço e então passou a lâmina ali, seca, mas meticulosa.

Começou a fazer a barba, sempre procurando a direção certa para não deixar as raízes. Admitia que não queria que sua mãe soubesse de sua barba. Não por nenhuma razão em especial, mas sabia que isso a atormentaria e, por vezes, ia no barbeiro para que a navalha a tirasse com mais precisão.

Terminado o ritual, voltou para seu quarto a tempo de espiar sua mãe na tentativa de acordar Angie pela fresta da porta da irmã. Guardou a gilette e colocou os sapatos sociais que tinha certeza ser um dos únicos rapazes que ainda os usava na escola. Pegou o blazer da escola e colocou-o sobre o ombro quando descia para o café.

Colocou a mesa para todos e deixou o cereal sobre ela, fazendo o seu de Snowflakes sem açúcar e com uma colher de mel logo após. Serviu-se de suco e começou a tomar seu café lentamente, sozinho na penumbra da mesa da cozinha. Afinal, Adan não acendia algumas lampadas por mania e, na cozinha, seu hábito era acender apenas a lâmpada acima do fogão.
..........

sexta-feira, 14 de maio de 2010

[Adrian] Into - My Dying Years

..........

Por meio deste livro, hei de narrar minhas milenares memórias. Cada dia do qual recordo estará disposto em palavras precisamente transcritas de minha mente. Talvez não tenham sentido, mas serei fiel à lógica que, para mim, é clara como a luz das velas com que fui ensinado a ler.

Desse modo, vejo que preciso me apresentar antes de deixá-lo a par de mais coisas do que pode desejar saber. A partir daqui, não existe mais retorno sobre o que está para presenciar dentro de meus sentimentos e memórias mais profundas. A partir daqui, estas folhas de papel contém mais do que tinta. Estão sendo escritas com o sangue mórbido de todos os inocentes que passaram por minha vida. Escritas com o pesar de todas as almas que estripei para fora de seus corpos, mas não com o receio ou o remorso de quem se arrepende de algo. Não me sinto minimamente perturbado com absolutamente nenhum ataque, tortura ou ato, por mais mais hediondo que seja, cometidos em meu passado. Contra vampiro, humano ou lobisomen. Contra criatura sobrenatural ou não, não me arrependo de tê-los ferido, assassinado ou atormentado de forma alguma. Sabe, até conto com orgulho algumas histórias nas quais me ví superando as barreiras da desumanidade para atingir meu máximo potencial como um sedento por sangue.

Um sedento por sangue, é assim que desejo começar minha apresentação. Sou um vampiro, tenho presas naturalmente maiores do que as dos outros e elas têm me sido extremamente úteis. Por algumas centenas de vezes cortei e furei meus lábios até aprender sua natureza e domá-la. Chamo-me Adrian Seymour, porém, meu sobrenome é insignificante. Arrasto-me pelos séculos com dezenas de diferentes identidades, mas eternamente hei de perpetuar meu nome. Aprecio-o e aprecio-me de igual maneira, para que possa abrir facilmente mão daquele que me foi dado em berço. Nascido em 476 d.c, não posso dizer-lhe o dia. Não por descaso, apenas não lembro-o. Os calendários não eram iguais, o mundo não era igual e, óbviamente, isso conta para a memória de um vampiro. Ao morrer, pois é o que biológicamente sou, um morto, criam-se diversas teorias sobre o mundo e suas origens, sobre as culturas e tradições. Fazer aniversário é nada mais que celebrar a sobrevivência e, então, não existe razão para que eu tenha comemorado essa data um ano sequer de meus 1500 anos de morte. Ah sim, meu deathday é dia 8 de maio, acho que isso significa que sou de touro em algum zodíaco. O resto será dito com o passar dos meus dias através destas folhas, até que esteja tão fundo em mim mesmo que perca sua identidade em meu mundo pessoal. Informado disso, espero que aprecie está leitura da mesma maneira que a vivi dia após dia.

..........

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

The Death by Sophia

Ponderando por hoje, resolvi falar sobre a morte.

Como é morrer? Por anos tive essa dúvida me atormentando, mas nunca tive real curiosidade de saná-la. Acreditava que era algo cujo todos descobriam ao final, um segredo dos homens mortos, um segredo inviolável, pois mesmo os que quase morrem, não tem real idéia de como foi sua passagem. Algo limpa-lhes a memória para que possam continuar.

Não era nada disso. Não era nenhum segredo inviolável dos mortos, nem um místico adereço da vida. Morrer não tem mistério e, por outro lado, continuar vivendo é o real martírio da existência.
Claro que só descobri isto com a minha morte. A nossa insaciabilidade humana vem conosco para a existência, mesmo que boa parte da ignorância fique na cova.

Irei me explicar, calmamente, prometo. Só preciso introduzir a minha versão do que foi a morte antes de continuarmos;
Estava apavorada, mas não o suficiente para esquecer a sensação de que o sangue se esvaiu de mim. Senti frio, como se congelassem meu corpo à partir dos pés, e, ao chegar nos joelhos, meu corpo estivesse se desfazendo em pequenos farelos.
Então um breve calor inundou tudo sentia-me um copo de água fervendo com um belo torrão de gelo acima, um torrão que não derretia com o calor da água, assim como não a resfriava, havia uma harmonia. Então a escuridão me preencheu, cada vazio anterior do meu coração e do meu corpo estava sendo coberto. (Estranhamente, posso definir como felicidade o que senti)
Acordei algum tempo depois, não saberia dizer quanto, mas foi quando entendi que morria, soube que naquele momento não tinha retorno.
Senti dor, tristeza, felicidade, alegria, ternura, e todos esses sentimentos e suas sub-divisões estavam começando a afundar para a parte de trás do meu corpo. Sentia-os deslizar por meu corpo como um líquido viscoso e negro, se acumularam em meus ombros, minhas costas, minha bunda, minhas panturrilhas e meus calcanhares, todos saídos de minha cabeça.
Abri a boca, desejando me desesperar, mas não consegui. Não sentia mais medo, nem preocupação. Algo em mim, por outro lado, estava extremamente curioso com o final de todo aquele teatro que ocorria em meu corpo.
No tempo que se seguiu uma segurança pareceu aterrar o líquido viscoso em minhas entranhas e sobre isso uma fome desesperadora me atingiu como um punho quente. Nesse momento me movi sacodindo o local onde estava e gritei. Arranhei a tampa do caixão e toda a serenidade que apresentava e sentia parecia ter sido posta tão fundo quanto o líquido negro em meu corpo.
Novamente gritei, mas um rugido foi o que ecoou de minhas cordas vocais. Não perdi tempo, precisava comer, me sentia enterrada a milênios, faminta e desesperada por milênios.

Gritei, rugi e gemi por muito tempo até que um rosto desconhecido surgiu de pé à beira do caixão. Algo nos olhos daquela figura me acalmou. Impediu que meu corpo surtasse novamente, algo nele parecia ter pleno controle sobre a faceta de mim que nem eu mesma compreendia.

[cont.]

> Não revisado.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Greg.

É complicado explicar o que me aconteceu, então partirei do início... Vim até essa parte do país com o objetivo de morrer. Na verdade, fazer justiça, mas ambas as palavras tem o mesmo significado quando se é um vampiro jovem -tenho 34 anos, no entanto, a minha laia me vê como uma criança de 8-. Sou natural de NY e meus assuntos eram no Alabama. Fiz essa viagem de carro -tenho problemas com aviões desde que não pude mais ficar acordado ou bêbado dentro deles- e foram dias nada agradaveis em que me dispuz a dormir encerrado num local que não me convém revelar, ainda.
Chegando ao meu destino, fiz o que tinha de fazer e rumei para Louisiana, não demorou muito para que
meus assuntos fossem finalizados, estava apenas aguardando as punições. Foi quando uma série de coisas incomuns se iniciasse comigo. Veja, quando digo que algo é incomun, falo REALMENTE de coisas estranhas. Não me apresentei, mas eu sou compositor e, atualmente, tecladista numa das bandas mais famosas de Hard Rock da qual se tem notícia. Além de ser um vampiro, ex-marido de uma groupie e ter como melhor amigo um junkie de carteirinha.
Das coisas estranhas que citei, a primeira foi dormir com uma garota cuja presença me acalmava algo além do corpo. Ela fez minha mente se esvanecer de uma maneira que não acontecia desde que estava vivo e sonhei com ela quando precisei me retirar para meu leito. Sonhei algo bom, realmente bom, como
também não me acontecia há anos. Posso dizer que ela mexeu comigo e muito.
Afetou-me também a maneira como o sangue dela começou a correr em minhas veias. O sabor dele é completamente diferente de, absolutamente, tudo o que já sonhei beber e corre quente por muito mais tempo do que outros. Acho também que ele não deixa plenamente o meu organismo, apesar de eu beber outras coisas. Parece que sempre tenho uma conexão com ela através desse resto que se aloja firmemente nas minhas veias. Ela me deixou louco, provavelmente. O problema é eu gostar disso.
Ela poderia me comandar como um soldado que eu gostaria disso. Logo eu, que sempre odiei ordens. Poderia pegar meu corpo e fazer dele o que quisesse, assim como da minha alma, que sinto já ter-lhe entregado para envolver meu coração que, com certeza, lhe pertence. E cada sentimento desse me faz sentir estúpido, da mesma maneira que me arrependo por não ter sentido-os anteriormente em vida. Sonho com ela toda a noite desde então, seu nome é Amélie, mas prefiro dizê-la Sunset. Agradeço por ter tido a vida que tive, por pior que tenha sido, é devido à ela que estou onde e, com quem, estou.

  • PS: Ela é amiga de duas malucas, na verdade caçadoras -mas não é a mesma coisa?-, que desejam a minha cabeça numa estaca, para uma decoração de bar. E eu ainda não disse-lhe nada sobre a minha família, então suponho que estamos quites. Ela deseja o melhor para as amigas comigo e eu desejo lhe contar sobre mim, mas não são coisas que vão acontecer.

  • PS²: QDDL.