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A chuva caia torrencial sobre sua cabeça, no ponto alto de sua vigília não havia proteção contra a água. Tinha o queixo quase colado ao peito para não atrapalhar os olhos. "Como os de um animal", pensava, "pode não ser nada". No entanto, "nada" voltou a se movimentar pela escuridão, procurando fugir sorrateiramente de onde sua primeira flecha caíra.Mudara de posição, pois ainda não sabia o que Nada era. Fora até o ponto mais alto da torre acima das proteções e do lugar de onde ficam os arqueiros. O terreno ali era um pouco irregular e estava escorregadio, fazendo-a quase cogitar ter sido uma má ideia. Porém, sabia que estava submersa em sombras e era a proteção que precisava. Nada parecia portar apenas uma faca de mão. Provavelmente um ladrão qualquer. Estava de vigília nos animais dos pastores e ela o pegara no ato. Ninguém mais alegou ver Nada. No entanto, a menos que fosse ele um elefante feito de ouro e iluminado com tochas, acreditava que nenhum dos homens da guarda daria-lhe ouvidos. Era uma mulher e já estavam desconfortáveis o suficiente com este fato para quererem se incomodar com algum outro.
Novamente Nada se moveu na escuridão, procurava abrigo atrás de árvores antes, mas agora escondia-se apenas na relva mais alta e em arbustos ou pedras. As planícies eram cruéis aos invasores. E Lyne acreditava que sua flecha também seria. Seu visitante noturno parou ajoelhado atrás de um arbusto, mas protegia-se de um local diferente do que a arqueira estava. Pode ver perfeitamente, então.
Nada era uma menina. Com alguns anos a mais que os seus, com os vestidos ensopados e rasgados. Não distinguia a cor de seus olhos, mas os cabelos pareciam de um vermelho escuro como sangue. Sangue também presente em sua faca. A carregava com pavor no olhar, mas lhe segurava com a firmeza de um assassino. Esse fora seu estopim, a maneira como a menina segurava a navalha não era como uma inocente faria. Sua flecha se encaminhou pelo arco em um movimento natural. Alinhou a seta e cerrou os olhos, piscando para remover gotas indesejáveis Soltou a corda e deixou o som de Vento sumir na ruidosa chuva até achar seu alvo.
Um grito de mulher preencheu seus ouvidos e viu quando ela deixou cair a navalha. A noite silenciosa ganhou os gemidos de dor e os archotes abaixo de seus pés se iluminaram. Na base dos muros os homens da guarda seguiam o som até acharem Nada. Ela se contorcia e arfava. A seta enfiada fundo na carne do ombro não era letal, mas doía como só ela. Entre os gemidos e com luz, viu quando os homens voltaram os olhos para os muros, procurando-lhe. Eles acharam a faca e levaram Nada para dentro, mas sabia que ao descer, não receberia nenhum sorriso de bom trabalho, mesmo que uma infantil parte de si desejasse isto.
Observou o chão irregular e tomou cuidado ao descê-lo. Os cabelos pareciam se misturar com a água e a escuridão e sua palidez era a única coisa para ser vista dentre seu couro cozido, capa e botas. Chegou à cobertura e se infiltrou nas muralhas, ensopando o caminho com sua presença. O frio lhe atingiu os ossos, mais forte do que acreditava estar enquanto vigiava sua presa.
Continuou andando até achar alguém. As roupas pesando três vezes mais reforçavam o frio, mas ainda desejava ver o que acontecera. Pôs o arco nas costas e adentrou mais os muros perto da guarda dos portões que se alocava ao redor da mulher. O capitão olhou-a de cima a baixo e sentia o desgosto. -Como vos disse, alguém se esgueirava pelas terras do senhor meu pai.
-Uma mulher. -Retrucou ele com resguardo. -Deve ser da vida ou uma gatuna qualquer.
-Não se portava como uma qualquer. Chame o meistre para cuidar dela. -Sua voz era vazia de emoções, mas firme como a de uma Hullsurge.
-Não é certo perturbar o meistre no meio da noite para poupar uma invasora, menina. Teria sido mais prudente dar-lhe uma flecha na cabeça ou nenhuma. O que fez só nos atribulará.
-Pois que faça como quiser para cuidar dela, mas a mantenha viva e bem tratada. Meu pai ouvirá disso pela manhã. -Ela se pôs à caminho para sair da sala, mas parou ao sopé da porta, ensopada e firme. -E não me chame de menina novamente, capitão.
Saiu do aposento mergulhando novamente na chuva para ir aos seus cômodos. Dessa vez o frio não veio. A água não lhe congelava mais. Passou pelo armeiro para deixar Vento e a capa verde escura e agora pesada como um cavalo sobre suas costas. Seguiu por dentro até a torre dos gêmeos como ficara denominada com o nascimento dela e Damian.
Chegou na porta do quarto do irmão do lado de fora e se apoiando na parede deixou-se cair e deslizar pelo molhado das roupas até estar sentada no chão. Torceu os cabelos, deixando um fluxo de água cair sobre as pedras e pegou-se pensando sobre a moça e imaginando sua história. Pensando o que o pai diria de manhã e se fizera o certo.
Passou muito tempo na escuridão do corredor com seus pensamentos e o frio até que um archote iluminou-lhe as faces. Era uma menina de 15 anos, molhada como um gato, branca como uma vela e de olhos grandes e, naquele momento, assustados. Talvez fosse digna de pena ou compaixão, mas sentia-se só no meio da casa cheia de gente.
O irmão mais velho estava de pé. Segurava o archote e trajava parte da roupa de capitão da guarda. Não parecia bravo ou chateado, mas cansado. Se aproximou dela e ajoelhou ao seu lado. Beijou-lhe a testa e apartou aquilo ainda sério. -Está ensopada, Lyne... Vamos..
Ela ergueu os olhos ao irmão e não se moveu, ainda tinha algo nos próprios orbes que remetia solidão. -Por que está de pé agora?
-Mandaram me acordar para ver o que fez. Foi um buraco e tanto na moça...
-Estava rondando nossos muros de faca em punho no meio da noite.
-Sim, vi a lâmina. Era muito boa para uma ladra qualquer. -Edward deu um suspiro e passou a mão pelos fios molhados dos cabelos da irmã.
-Então o que te trouxe aqui?
-Abater alguém não é fácil.
-Abater? -Sua voz soou copiosamente imbecil.
-Está morta. O que me leva à perguntar... Onde arrumou veneno para sua flecha?
-Veneno?! -Não sabia como responder, não usava veneno nas flechas desde que vira um coelho retorcer de dor até a morte. Pegara nojo dos venenos. -Lugar algum, não uso disso! Estava viva quando à deixei para ser cuidada por -Nomedocap.dosportões- Como pode ter morrido?!
-Lyne, por favor. Não está mentindo, está?
-Juro por Vento que não. Dou minha palavra. -Seus olhos se encheram de lágrimas e não teve como pará-las. Angustiava-a a ideia de que a mulher morrera e de que ela era a culpada. -Não a matei! Podia tê-lo feito. Podia e até pensei, mas dou minha palavra de que atingi o ombro da faca só para que os guardas a vissem. Soubesse sua posição e queria que acreditassem quando os disse que havia alguém! Sabe que posso vê-los, Edd. Sabe disso. -Sua voz, quase sempre firme e estoica agora se transformara em um miado de menina.
Entre soluços o irmão passou os braços ao seu redor, permitindo que afogasse o choro em seu peito. Ele parecia aliviado. Abraçou-a um pouco mais firme, molhando as próprias roupas.
-É melhor se trocar, vai ficar acamada se continuar molhada desse modo.
Assentiu com a cabeça e, após um tempo soltou-se dele. -Pode dormir comigo essa noite? -Os olhos cor de trigo brilharam à luz do archote e, recheados de lágrimas, refletiam seu medo.
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