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O moreno tragou pela última vez o cigarro e aproveitou o conforto momentâneo, expelindo a fumaça que sobrara antes de atirá-lo à escuridão do chão úmido. Se desencostou da parede e saiu andando com seu par de all stars azuis marinhos limpos por aquela imundice típica de vielas de cidades grandes. Estabeleceu um rumo imaginário em sua mente e adentrou o beco não iluminado, com os olhos voltados para o chão e as mãos na jaqueta de - negro tomava a rota mais rápida para casa.
Eram quase quatro da manhã e Adan andava pelo inverno de Chicago apenas com um agasalho e a calça do pijama por baixo do jeans azul marinho. Não parecia preocupado em se congelar, mas sentia a umidade dos tênis e o arder das maçãs do rosto. Agora que a fumaça do cigarro cessara sua respiração era balanceada pela nevoa feita do ar gélido e o calor que suas narinas ainda tentavam expelir com o gás carbonico.
Não tinha mais de dezessete anos e seu rosto mentia bem esse número. Assim como sua altura, que não chegava a 1,80, parecia resolver sacaneá-lo para que parecesse ter 15. Adan era extremamente auto-crítico e detalhista, mas não era possivel sabê-lo. Quanto mais seu gosto por conhaque e rum. Realmente apreciava as bebidas e estudara-as para saber mais. No entanto, o gosto que estava em sua garganta agora não era de nenhum bom rum, mas de um conhaque vagabundo que servira para esquentar seu retorno.
Não era um vândalo ou vagabundo, quanto menos se assemelhava a um delinquente ou qualquer hoolligan kind type. Seus pais provavelmente sabiam que ele não estava em casa e era normal que não fizessem nada, Adan não conseguia passar intimidade ao casal, nenhum tipo de intimidade que os fizesse sequer soar como seus pais após certa idade. Ele estava ali e eles estavam ali, era sua relação. Algum aceno com a cabeça e murmurar qualquer comentário à mesa de jantar. Era tratado diferente e, desse modo, era diferente.
Continuou seu caminho e não pensava em ser assaltado, nem acreditava que seria. De qualquer modo, também não se importava caso fosse e era esse o tipo de segurança pessoal que tinha ao andar pelas ruas.
Fez um novo trajeto mental e o seguiu por alguns quilometros. Gostava de andar, seus passos eram calmos e sem pressa. Notava a mudança de cor no céu enquanto andava e absorvia os tons róseos extremamente finos salpicarem o azul negro do inverno.
Faltavam vinte para as sete quando pisou no doormat de sua casa e secou a sola dos tênis ensopados com umidade. Tirou suas chaves do bolso e despiu os calçados e as meias no gélido ar de dezembro. Entrou em casa sentindo o calor do aquecedor e fechou a porta com a suavidade de quem não acha justo acordar os pais.
Andou até a lavanderia e tirou seu casaco e calça jeans no tanque. Deixou também seu par de tênis ali ao lado e seguiu trajando os pijamas ligeiramente frios pela casa bem arrumada dos pais. Acreditava que sua avó viera fazer faxina no meio da semana e isso explicava não residirem copos na pia ou sapatos embaixo da mesa de centro.
Subiu para o seu quarto e pegou uma toalha, na direção do banheiro. Passou os olhos pela fresta da porta de sua irmã e pôde vê-la aquecida em seu edredom tom de pêssego. Esboçou o que era sua representação de sorriso e fechou-se no banheiro, pendurando sua toalha no devido local e livrando-se das calças e da blusa, pondo-as no cesto de roupas.
Ligou a água quente e entrou de cueca na ducha. Apoiou a testa em uma das paredes e deixou o calor deslizar por sua nuca abaixo. Percorrendo a trajetória de sua coluna até o elástico da boxer branca. Não por charme, sua mãe comprava-as e era só.
Tirou sua última peça de roupa e, enfim, focou-se em tirar a imundice da rua de si antes de ir para a aula.
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A ruiva abriu os olhos quando a ducha fora ligada e se manteve observando o teto desde então. Estava perturbada e era só o que se permitia sentir. Não fez muitos movimentos mais para não despertar Jordan, mas sentia a palpitação desrregulada de seu coração. O estômago era embrulhado e apenas ponderava sobre o som da ducha que sabia ser do filho mais velho.
Não se iludia ao pensar que ele acabara de acordar. Conhecia os hábitos do moreno como um relógio e mais ainda conhecia o que andava fazendo. Havia brigado diversas vezes e acreditava que inutilmente. Manteve-se frustrada e deitada em sua impotencia até que o som parasse e ela pudesse despertar para fazer o café e acordar Angie.
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Por mais dez minutos, Adan se banhou e enrolou na toalha, secando os cabelos, as canelas e os pés para que não molhassem nunca o chão. Não gostava de molhar o chão. Caminhou para fora do banheiro e deixou tudo o mais próximo de como estava antes que ele entrasse lá. Seguiu para o seu quarto e deixou a janela entreaberta com o frio da manhã enquanto se vestia. Era uma das poucas coisas que, honestamente, acalmava-o.
Abriu o armário e colocou uma nova roupa de baixo antes de pegar sua calça social azul e a blusa branca, também social. Secou bem os cabelos antes de por a blusa e amarrou a gravata após passar desodorante e creme para acne nas bochechas. Estava no fim seu tubo, assim como suas espinhas. Meticulosamente passou os dedos pela prateleira de afins em seu armário e retirou uma gilette, indo novamente para o banheiro sem muita vontade.
Parou de frente para a pia e observou a lâmina em sua mão por um segundo ou dois, então aproximou o rosto do espelho. Passou os dedos pelo queixo e bochechas sem nenhuma expressão , desceu a averiguação pelo pescoço e então passou a lâmina ali, seca, mas meticulosa.
Começou a fazer a barba, sempre procurando a direção certa para não deixar as raízes. Admitia que não queria que sua mãe soubesse de sua barba. Não por nenhuma razão em especial, mas sabia que isso a atormentaria e, por vezes, ia no barbeiro para que a navalha a tirasse com mais precisão.
Terminado o ritual, voltou para seu quarto a tempo de espiar sua mãe na tentativa de acordar Angie pela fresta da porta da irmã. Guardou a gilette e colocou os sapatos sociais que tinha certeza ser um dos únicos rapazes que ainda os usava na escola. Pegou o blazer da escola e colocou-o sobre o ombro quando descia para o café.
Colocou a mesa para todos e deixou o cereal sobre ela, fazendo o seu de Snowflakes sem açúcar e com uma colher de mel logo após. Serviu-se de suco e começou a tomar seu café lentamente, sozinho na penumbra da mesa da cozinha. Afinal, Adan não acendia algumas lampadas por mania e, na cozinha, seu hábito era acender apenas a lâmpada acima do fogão.
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